Roteiro de um dia sem graça
Segunda-feira, Agosto 8th, 2005Ficar procurando o que fazer é uma merda. A gente reclama do corre-corre do cotidiano e vive dizendo que não aguenta mais não ter tempo pra nada… Mas quando realmente não temos mais o que fazer, uma angústia irritante vai crescendo e nos incomodando de tal forma somos levados a um “roteiro de dia sem graça” como este:
(Atenção: A seguir serão descritos, passo a passo, os movimentos que fiz em um sábado enfadonho. Portanto, não exija muito de um texto concebido em tais condições.)
01. Peguei meu bloquinho de notas e procurei uma caneta que ainda estivesse funcionando no meio da bagunça da minha mesa;
02. Saí de casa sem rumo;
03. No caminho, pensei para onde iria;
04. Andei pela minha rua deserta e senti um certo medo de ser assaltado;
05. Mas superei o medo e continuei a caminhada;
06. Pensei na vida;
07. Senti vontade de fazer várias coisas (Tipo andar no meio da rua, tirar fotos, fazer um filme de ação e construir uma pista de gelo no lugar da calçada);
08. Chamei o primeiro ônibus que passou;
09. Fui levado;
10. Comecei a desenvolver a habilidade de escrever em movimento;
11. Olhei as pessoas e senti seus cheiros (nem sempre agradáveis);
12. Ouvi suas conversas e imaginei como eles deveriam se comportar no dia-a-dia;
13. Observei as excentricidades do motorista (ex: Óculos na cabeça, adesivos do Bahia no painel, flanela na marcha, encosto do banco com bolinhas anti-stress…);
14. Depois busquei olhar para os pontos que nunca olho na rua;
15. Não reconheci o caminho do ônibus e resolvi não me importar com isso, afinal eu já estava sem rumo;
16. Comecei a imaginar qual o nome da senhora de saia bege e camisa preta da Canal Jeans que estava sentada lá na frente;
17. Devia chamar-se Neide… e seu filho: Joel… talvez apelidado de Zinho…
18. Também imaginei o que “Zinho” levava na sacola… (Uma bola murcha? Um Uma galinha morta? Uma caneleira e um tênis topper?)
19. Admirei os casais mais humildes, como o sentado ao meu lado (Suas pulseiras iguais, seus óculos de sol, suas sandálias e seus apelidos de “Inho” e “Inha”…);
20. Acostumei-me a escrever no balanço do ônibus e resolvi que já está na hora de descer;
21. Avistei o mar e puxei a cordinha;
22. Andei por outras ruas;
23. As vezes parava para escrever e ao apoiar o bloquinho nos postes, sentia a vida seguindo em frente;
24. Suei;
25. Fui seqüestrado pelo nada;
26. Me frustrei por esperar algo interessante acontecer;
27. Por fim, fiz apostas comigo mesmo: “Se o próximo carro que passar for vermelho, eu volto pra casa…”;
28. Ver um carro vermelho passar, mas sentir preguiça…
29. “Ah, aquele não valeu… era meio vinho…”
30. Continuei andando e só voltei pra casa no fim do dia…
Em resumo: Desanuviei a cabeça e cansei as pernas…
Acho que foi uma boa troca…





