Na livraria
Terça-feira, Abril 20th, 2004Já estava na metade do livro quando ele sentou na mesa da frente. Era gordo e tinha pouco cabelo no topo da cabeça. Falava no celular e tornava aquele ambiente ainda mais barulhento.
Assim não dá pra ler mesmo! Pensei e resolvi prestar atenção no papo do sujeito.
- É, tenho que ir na casa de Martinha pra pegar o carro! É! O carro!
De repente percebi que era o único que tinha parado para ouvir a conversa daquela figura. Todos pareciam tão entretidos em seus livros e em seus mundos que mesmo aquele barulhão não interferia nas suas leituras.
- É! Ontem não deu pra passar na Martinha por que eu tava de caganeira!
Súbito silêncio sepulcral. Parecia que aquela palavra tinha o poder de atrair a atenção das pessoas. Todos viraram a cabeça e até ele agora falava mais baixo no celular.
Ri baixinho e voltei ao livro. As conversas que recomeçavam ali perto já rompiam o silêncio repentino. Fiquei calado, mas tive uma vontade tremenda de gritar “Caganeira” de novo, ah tive!
